Sant’Anna DionÃsio foi um daqueles intelectuais com uma escrita errante que Ãa da metafÃsica à pedagogia grega até à  cultura nacional. Pelo meio ainda teve tempo para nos deixar um incontornável Guia de Portugal. Foi também um intelectual muito agarrado à sua cidade – ao Porto – discorrendo sobre ela nas folhas da imprensa local. Projectos de mesa de café e opiniões generosamente publicitadas, mas também crítica pertinente. Ler a cidade pelos olhos de Sant’Anna DionÃsio é uma boa maneira de sentir o ambiente cultural que enquadrou algumas das intervenções urbanÃsticas decisivas da primeira metade do século XX. Este excerto refere-se à abertura da Avenida dos Aliados, a tal “Avenida PossÃvel”. Será curioso constatar que algumas das ideias aqui expostas poderiam ter sido publicadas ainda hoje por qualquer respeitável cidadão portuense. Ao que parece, o imaginário sobre a cidade desejada resiste ainda mais ao tempo do que a própria cidade.
Que via Sant’Anna quando olhava para o Porto? Em primeiro lugar, Lisboa. É assim mesmo. Não há portuense que se preze que não ilumine previamente o seu discurso com uma comparação com a capital. Um hábito que veio para ficar e que, de resto, já vinha de muito longe.  Em segundo lugar, avenidas. As grandes avenidas que nos conduzem a uma vez da idade média ao século XX e da provÃncia à Europa. O Porto ainda hoje anda por aà ensimesmado com as avenidas, discutindo-as exactamente nos mesmos termos de então. Em terceiro lugar, estorvos. O elogio da abertura da Mouzinho da Silveira e a frustração da Trindade que nem caiu nem nada. Nada que não se ouça por aà entre desabafos («Lisboa tem tudo. Até terramotos! E nós aqui a apodrecer nestas vielas onde nem um carro cabe»). É claro que hoje a escala é mais comedida que andam por aà os cões do património. Mesmo assim, lá se vai esticando um túnel para ali, moendo o miolo de um quarteirão acolá, rasgando uma fachada para a garagem… enfim, só dá trabalho esta cidade velha. Em quarto lugar, elites, ou melhor, a nostalgia pelas elites. Uma choradeira que ainda hoje subsiste e que parece não ter fim. Foram-se e deixaram o povo sózinho em casa. Agora não há ninguém para tomar conta de nós e que tome decisões que façam isto andar para a frente. Assim, como uma avenida… Em quinto lugar, a cidade hierarquizada e plasmada em plantas e mapas, a partir dos quais, qual General dos exércitos de Napoleão, a elite governativa toma graves decisões sem que o cidadão tenha direito a emitir uma opinião. Que sabe o povo desta coisa tão complicada que é uma cidade? Isto é muito complicado… E reparem que à época não havia ainda um Siza para blindar a responsabilidade política e manter bem afastado o inoportuno cidadão. Aprecio bastante Sant’Anna DionÃsio porque foi bem um homem do seu tempo. Só me irrita que seja tão actual.
Lisboa, cuja remodelação profunda se deve, antes de tudo, Ã audácia imaginativa de um Pombal ou de um Rosa Araújo (um servindo-se de um terramoto; o outro fazendo um pequeno terramoto para abrir uma artéria que seria o golpe mais audaz e certeiro de urbanismo que em Portugal se realizou nestes últimos 150 anos) constitui outro exemplo elucidativo de quanto pode a vontade bem iluminada.
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Em boa verdade, não se pode dizer que a cidade do Porto não tenha tido, depois dos dois desembaraçados e dedicadÃssimos Almadas, outros homens dotados de bom querer que se lhe consagraram como urbanizadores e reformadores. Bastará lembrar as figuras de João Allen, de Pinto Bessa, de ElÃsio Melo, de Santos Silva que, no plano arquitectónico ou pedagógico, na relativa brevidade das suas passagens pelos Paços do Concelho tiveram iniciativas mais que relevantes, indeléveis. É ver, por exemplo, o que foi (ou terá sido), para o porvir e desafogo da cidade, a abertura da Rua de Mouzinho da Silveira, nos fins do século passado, ou o rompimento amplo e rectilÃneo de cinco quilómetros da Avenida da Boavista, nos começos deste século, ou a substituição audaciosa e rápida do velho bairro do Laranjal pela actual Avenida dos Aliados, efectuada, pode dizer-se, num triénio (de 1915-17), para se reconhecer sem favor que a cidade teve, em certas fases, homens de envergadura a «puxá-la»,para cima, com braço firme e imaginação forte.
No entanto, há que convir que, mesmo nessas iniciativas e obras de relativo rasgo, se fizera sentir certos quebrantos, certas complacências que as lesaram de raiz. Assim, na obra de urbanização de ElÃsio Melo (embora tão notável), é forçoso reconhecer a lamentável desistência do urbanizador de levar para diante e para cima a grande avenida axial de que a cidade tanto necessitava e ainda necessita, no sentido norte-sul. Se o templo e o hospital da Trindade eram irremovÃveis, contornava-se um e outro e prosseguia-se «como se» esses dois obstáculos fossem simplesmente transitórios. Mais meio século, menos meio século, o bloco seria removido. Como «impasse» é que nunca deveria ser considerado. Infelizmente, a desistência cristalizou no próprio plano adoptado. Considerou-se inviável a Avenida.
Como sempre sucede, o erro acarretaria o erro. «Abyssus, abyssum invocat» – apotegma que o Camilo traduzia, fora de letra, à antiga portuguesa: «asneira puxa asneira».
O primeiro erro foi o de se erguer em face da avenida tida como inviável outro bloco mais poderoso e mais irremovÃvel ainda do que a igreja e a Ordem; o segundo, foi o de se transformar o antigo Horto Municipal (ou feira dos carneiros) em uma estação término superficial, quando se poderia ter feito uma estação subjacente (a uns 10 ou 12 metros abaixo do nÃvel do solo) que em nada prejudicaria o prosseguimento da «avenida realizável»; terceiro, o consentimento da reconstrução de um grande edifício sobranceiro a esse terreno tão necessário, após o incêndio que o havia destruÃdo; quarto, a não congelação das construções na faixa utilizável para a abertura dessa artéria, desde esse chão livre e municipal do Porto até ao alto da Constituição, ou mais ainda, até ao pinhal de Paranhos; finalmente, – e esse foi o erro máximo – o não se ter dado início a essa abertura da «avenida vertebral» pela zona periférica, já que a abertura a partir do centro seria extremamente difÃcil e dispendiosa.
Em Lisboa, o forte e obeso, decidido e pesado Rosa Araújo, venceu de um golpe a batalha da Avenida, porque, sem tir-te nem guar-te, arrasou em poucas semanas o Passeio Público, onde o bom lisboeta gostava de ouvir música aos domingos e tomar o seu capilé nas tardes calmosas e, feito isto, não lhe foi difÃcil levar até ao alto a audaciosa terraplanagem – , porque por detrás dele, estava o aval do Fontes e o espÃrito teimoso do Fontes.
No Porto, mesmo sem aval e sem Fontes, a grandiosa e desafogada obra seria realizável se um pouco de audácia se tivesse associado a precisa «contemporização», efectuando-se esse empreendimento pelo extremo mais acessÃvel, que era o periférico e não o centro urbano.
Foi, de resto, o que o desaparecido ministro Duarte Pacheco sugeriu, segundo nos disse há pouco tempo um engenheiro e antigo coetâneo nosso da Universidade, que fazia parte de uma comitiva de técnicos na sua derradeira visita ao Porto. Era então presidente do municÃpio o professor de Antropologia Mendes Correia. O ministro, com o seu peculiar desembaraço, indicou-lhe o que era necessário: abrir artérias novas e amplas, a partir de fora. E exemplificou, apontando na carta da cidade, o que seria preciso «destruir». O presidente do Municipio, com o seu conhecido vozeirão, parece ter exclamado, assustado:
- Oh Senhor Ministro! Se eu fizesse isso, chegavam-me fogo!
O ministro, com a sua habitual franqueza e prontidão, retorquiu:
- Não fazia mal. O senhor ardia, mas a sua obra ficava.
A solução, realmente, é essa mesma. Certas obras de urbanização da cidade consideradas como «muito difÃceis» há cinquenta anos e tidas como «irrealizáveis» hoje são, afinal, perfeitamente viáveis desde que não se sobreponham os chamados respeitos humanos (tão flagrantemente traduzidos naquela exclamação do presidente do municÃpio de há vinte anos), aos interesses autênticos e vivos da própria cidade.
A avenida hoje tida como irrealizável, estaria seguramente rasgada e concluÃda, se, há quarenta anos, tivesse sido traçada e decidida e se tivesse dado inicio à sua abertura pelo simples rompimento de um campo de milho ou de um pinhal.
O processo seria Tão discreto que nem haveria o risco para quatro ou cinco presidentes chamuscarem a ponta da rabona.
DIONÃSIO, Sant’Anna - Da Urbe e do Burgo. 2ª edição. Porto, 1983 [pp 170-174]
PS: Recomendo a leitura do blog A Cidade Surpreendente do Carlos Romão. No ano de 2006 publicou vários excertos da obra aqui referida.
David Afonso




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