Um Domingo à noite na Baixa do Porto

A abertura do novo centro comercial na Baixa do Porto – e as dúvidas que, para mim, persistem quanto à sustentabilidade, a longo prazo, do equipamento e quanto ao seu potencial de animação do centro da cidade – trouxe-me à memória um texto que tive oportunidade de publicar há já algum tempo no Jornal Universitário do Porto e que agora retomo, com pequenas alterações.

Um destes Domingos, dei por mim a passear no Via Catarina, passava já das nove da noite. Não fora o facto de ter combinado encontrar-me no centro comercial com uma pessoa e dificilmente seria visto ali, naquele lugar, àquela hora. O meu nome figura no interminável índex das pessoas que, nas últimas décadas, abandonaram a Baixa do Porto rumo aos subúrbios, onde o processo de urbanização fez crescer, como cogumelos, casas novas, com áreas generosas e, acima de tudo, baratas.

A pé, o trajecto da minha antiga casa na Baixa do Porto até ao Via Catarina faz-se em menos de cinco minutos. Felizmente, ao Domingo à noite não há trânsito. Quinze minutos bastam para, vindo dos subúrbios, arribar na metrópole. Estaciono não muito longe do Via Catarina e corro a abrigar-me da chuva na “catedral do consumo”. Por estar adiantado, decido aproveitar para dar uma volta e ver as montras.

Contrariamente ao que se poderia pensar, o centro comercial não contrasta muito com o ambiente lá fora. Na verdade, espelha até com algum rigor aquilo em que a Baixa do Porto se tem vindo a tornar. Quem ali se dirigisse à procura de bulício, animação e calor humano certamente sairia decepcionado com as lojas vazias, o aspecto soturno de alguns espaços, o reduzido movimento. Uma noite chuvosa de Domingo está longe de ser o enquadramento mais convidativo para umas compras na Baixa do Porto, mas o calendário e o clima não explicam tudo.

Ao Domingo à noite, o Via Catarina consegue transformar-se na caricatura paradoxal do Porto que temos: um território social e economicamente clivado, com um núcleo central esvaziado e deprimido. Um espaço à partida estruturado para funcionar como cenário de inclusão social – de uma certa inclusão social – por via do consumo, torna-se, em grande medida, um prolongamento do espaço social que está para lá das suas portas.

Espaços destinados ao consumo de massas, assentes numa noção catch all de “classe média” da qual estão dependentes, os centros comerciais vêem a configuração dos seus públicos alterar-se à medida que se altera a configuração social dos seus ambientes de inserção, o que explica o cenário aparentemente atípico que o Via Catarina apresenta ao Domingo à noite. O que acontece é que a “classe média” de cujos “desejos” e “vontades” a vida do centro comercial depende há muito que não vive na Baixa do Porto. Os centros comerciais que enche são em Matosinhos, na Maia, em Gondomar ou em Vila Nova de Gaia.

O Via Catarina, pelo contrário, está vazio. Totalmente vazio não, porque há ainda muita gente a jantar, a fazer compras ou a trabalhar nas lojas e serviços que possibilitam o funcionamento do espaço. A sensação que me invade, porém, é de vazio. Sobretudo porque o cenário é totalmente diferente daquele a que estamos habituados num centro comercial.

Dou uma volta pelos corredores do shopping. São 21:20 quando inicio o meu percurso. As lojas estão praticamente vazias, quase todas. O pequeno supermercado que existe dentro do Via Catarina é o único espaço com algum movimento: vejo um ou outro jovem (provavelmente estudantes do ensino superior com apartamento alugado na Baixa), alguns imigrantes, alguns velhos. Subo as escadas rolantes e, no andar de cima, vejo o primeiro grupo: seis ou sete pessoas compõem uma família ou grupo de amigos brasileiros, imigrantes certamente. Casais jovens são muito poucos; casais de meia idade ainda menos.

Entro numa loja de roupa, uma multinacional espanhola dessas que todos os centros comerciais têm, e olho à minha volta. Para além do empregado, não estarão na loja mais do que duas, três pessoas, incluindo eu próprio. Por momentos, chego a ficar sozinho com o funcionário. É bom para fazer compras à vontade, mas acabo por me sentir pouco confortável e decido sair: falta ali a “normalidade” que é necessária para nos sentirmos tranquilos.

Como ainda é cedo, decido subir à área da restauração e tomar um café. O cenário é ainda mais soturno. À fraca iluminação alia-se à imagem sociográfica que retenho do espaço: velhos solitários, imigrantes – essencialmente brasileiros e europeus dos países de Leste -, homens sós, alguns grupos de jovens – “gunas”, como porventura se autodenominariam. O facto de estarem num centro comercial a “consumir” não impede que os represente mentalmente como ocupantes de posições sociais eminentemente descapitalizadas. Apesar da co-presença, barreiras sociais e simbólicas separam os diversos inquilinos temporários do espaço.

A configuração cénica do shopping, com as suas miniaturas de casas típicas do centro do Porto, adquire um cunho um tanto ou quanto irónico. O “urbanismo de fantasia” em cujo conceito assenta o tema geral da decoração e organização do espaço torna-se progressivamente menos fantasista, à medida que nos apercebemos da relação profundamente dialéctica que existe entre o interior e o exterior do centro comercial. Ao Domingo à noite, a predisposição segregacionista do shopping atenua-se e torna-se mais fácil vislumbrar naquela cidade de fantasia alguns dos traços da cidade real para lá das suas portas.

À empresa que administra o centro comercial – como às empresas que nele têm as suas lojas – interessaria seguramente que as noites de Domingo fossem mais fervilhantes, com novos públicos e índices reforçados de procura. Uma Baixa reocupada e revitalizada contribuiria certamente para a materialização desse objectivo, porventura tornando dispensáveis e até indesejáveis aqueles que, para já, povoam o shopping ao Domingo à noite.

Numa cidade que se queira inclusiva, porém, ninguém é dispensável, ninguém pode tornar-se indesejável. Projectar a reabilitação de um centro urbano exclusivamente para as pessoas que podem usar “roupas de marca”, ignorando a complexa trama de relações sociais e os problemas que caracterizam o tecido social existente, não só coarcta as possibilidades de aprofundamento da pluralidade social e cultural da cidade, como acentua a inscrição territorial profunda das clivagens sociais mais vastas que caracterizam as cidades contemporâneas, contribuindo para a ocultação, marginalização e menorização social e política dos grupos que vivem (resistem?) na Baixa do Porto. Não se trata aqui de discutir o “direito ao consumo”; trata-se, isso sim, de reequacionar o “direito à cidade”.

João Queirós




Expressão de Arlindo Cunha, Presidente do Conselho de Administração da Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa do Porto, em entrevista ao suplemento “IMOBITUR” do Jornal de Notícias de 20 de Março de 2006.

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5 respostas a Um Domingo à noite na Baixa do Porto

  1. Por ironia, enquanto publicavas este post, a zona da baixa comercial atravessa um inesperado frenesim. Uma massa humana ocupa as ruas atraida pelas luzes de natal e por uma bizarra árvore de natal metálica. Para cúmulo, um novo shopping vizinho ao Stª Catarina abriu as poras. Mas a vida é aparente: as lojas estão fechadas e o trânsito um verdadeiro inferno na terra. Um estranho domingo…

  2. João Queirós diz:

    É verdade… mas nada como reflectir em contraciclo. É certo que ficamos com a imagem de pessimistas, mas o tempo acaba por nos redimir. Ou então… não! Esperemos que não! Adoro enganar-me nestas coisas.

  3. João Queirós diz:

    Ahhh… Obrigado pelas correcções em matéria de formatação. Ainda estou a habituar-me a este formato.

  4. Calma que ainda está por provar que haja um novo ciclo…

    Também gostaria de acrescentar que até foste meigo com o Arlindo Cunha porque, assim de pé prá mão, sou capaz de me lembrar de meia dúzia de sentenças do mesmo género que citaste.

    PS: Ahhh… este formato é rebelde! Está-me a dar cá umas dores de cabeça! Mas o nosso técnico prometeu-nos uma «ferramenta revolucionária». A ver vamos.

  5. João Queirós diz:

    O ciclo termina no dia 25 de Dezembro. Se fosse em Espanha seria a 6 de Janeiro de 2008…

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