“Eu só vi Niemeyer uma vez. Tinha chegado a BrasÃlia nessa tarde, o trabalho que tinha vindo fazer era urgente e só tive tempo de depositar a mala na recepção do Hotel Nacional e pedir que a subissem até ao quarto. E logo saÃ, só tendo voltado horas depois, exausto e nada mais desejando do que uma cama onde adormecer e descansar o cansaço e o fuso horário. Mas quando entrei no quarto estava à s escuras e toda a parede do fundo era uma imensa janela de vidro aberta até ao chão e que dava para a praça dos três poderes. Os “palácios” de Niemeyer, como dizem os brasileiros, estavam iluminados e eu quedei-me ali, suspenso do meu cansaço, a olhar, sem conseguir separar a ilusão da realidade. Reparei que nada tocava no chão, que tudo – a Catedral, o Congresso, o Alvorada – parecia flutuar no ar, como ondas em suave movimento, em curvas absurdas (igual à s curvas das mulheres, como explicou o Niemeyer) e nessa noite, olhando a praça dos três poderes através da janela do quarto, custou-me a adormecer, porque não sabia se alguma vez voltaria a estar tão perto e tão próximo de decifrar a magia da arquitectura.”
Miguel Sousa Tavares (publicado na revista Arquitectura & Construção)
Adriana Floret



