Largo do Rato

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Sobre o projecto do Largo do Rato, Lisboa:

[Nota prévia: como não conheço o projecto de Valsassina e Aires Mateus para além de alguns 3D's reproduzidos por aí e como o Largo do Rato não me diz muito porque estou perdido na província, não vou formular qualquer juízo sobre o projecto em si. Porém, três pontos sobre o assunto porque sim:]

1. Às vezes lá acontece. Um passo em falso ou uma movimentação inesperada das placas tectónicas partidárias e a polémica rebenta. E, de certo modo, ainda bem porque assim a cidade discute arquitectura, discute decisões políticas e discute-se a ela própria. As facções organizam-se, surgem petições, publicam-se doutos textos, as cheerleaders fazem o seu trabalho e alguma opinião pública agita-se. É a cidade a despertar. A arquitectura de qualidade (boa ou má) faz destas coisas. Venha mais.

2. O poder discricionário que os técnicos municipais têm sobre o trabalho dos seus colegas – apesar de não ser bem isso que está aqui em causa – é qualquer coisa de aterrador. Do alto da sua torre de papel selado, armado do mais labiríntico corpo de leis alguma vez produzido pela humanidade, fruto do esforço de gerações de burocratas e dos jogos tácticos de poder, o arquitecto-burocrata debita pareceres e opiniões sobre o trabalho de quem vive do risco. É apenas mais uma estranha forma de vida deste nosso ecossistema do betão. Muito se decide ali, a meio caminho entre o promotor e o político, entre o interesse privado e o interesse público. As zonas cinzentas são férteis. Para complicar as coisas, os caprichos políticos são instáveis e é sempre possível dar o dito por não dito e virar a casaca que não lhes custa nada. No caso do Largo do Rato, parece que as expectativas dos promotores foram legitimadas pela autarquia num momento qualquer e os custos das consequências desta postura de catavento serão suportados pelos sempre prestáveis contribuintes. Aqui ninguém está seguro: o promotor, o arquitecto, os técnicos e os políticos municipais. Com o caldo entornado nada se resolve e muitas das vezes a coisa termina nos tribunais. Não é altura de se encontrar um mediador para estes casos?

3. A Ordem dos Arquitectos tenta desempenhar aqui um papel para a qual não está talhada, que é o papel de mediadora, porque é sua função zelar pelos interesses dos seus membros. É obviamente parte interessada, defendendo, mesmo de uma forma velada, o projecto. Exemplo disso é que a 9 de Setembro a OA promoverá mais uma sessão de esclarecimento sobre o projecto. Pergunto-me se esta instituição teria o mesmo zelo se se tratasse de um projecto de um arquitecto menor… e mesmo que me digam que não, que não fazem distinção de estatuto entre os seus membros, a verdade é que não vejo a ordem a correr a todos os fogos. Ele há arquitectos e arquitectos. Em todo o caso, faz falta um mediador imparcial entre os actores deste e de todos os outros conflitos entre as autarquias e os autores/promotores dos projectos. Tal como em outros sectores, o recurso voluntário à mediação de conflitos pode ajudar a poupar tempo e dinheiro. Era bom se as autarquias, as ordens e associações do sector se entendessem quanto a isso. Negociar na discrição dos gabinetes ou decidir nas salas dos tribunais é que serão sempre más opções.

David Afonso

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3 respostas a Largo do Rato

  1. António de Borja Araújo diz:

    1 – Tal como o David Afonso, não conheço o projecto e não comento.

    2 – Mas conheço o local e não me choca que, numa área valorizadíssima da cidade, se pretenda resolver uma esquina mal atamancada, consequente da inserção da Rua Alexandre Herculano no Largo do Rato, em pricípios do séc. XX, esquina essa onde subsiste uma edificação degradada, sem qualquer valor cultural ou comercial.

    3 – Mal estaria a cidade se a apreciação do mérito dos projectos privados fosse feita na praça pública; a chamada democracia popular já demonstrou por demais as suas duvidosas virtualidades.

    4 – Que Ordem dos Arquitectos faça lobby, é natural; trata-se de uma associação de profissionais que cuida de resguardar os interesses dos seus associados; outras, como a Associação Nacional das das farmácias, também o fazem e, se calhar, ainda com mais sucesso; outras, como a dos Engenheiros a que pertenço, poderiam aprender alguma coisa com o exemplo destas.

    5 – Que uns são mais iguais do que os outros, não é novidade; como diria António Guterres, «… é a vida…»

    6 – Mais complicada se torna a conversa quando começamos a falar de poderes discricionários; por exemplo, dos técnicos assalariados da administração pública sobre os seus colegas de profissõa, já para não falar desse mesmo poder sobre os cidadãos mais indefesos.

    7 – E continua a complicar-se mais quando se fala de direitos adquiridos…

    O que é que nos falta? Vale a pena ler o que Clara Ferreira Laves escreveu na revista do Expresso :

    «A justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca
    Clara Ferreira Alves – Expresso

    Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros.

    Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

    Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

    Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

    Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura.

    E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

    Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

    Vale e Azevedo pagou por todos.

    Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
    Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
    Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?
    Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
    Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

    Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
    No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

    As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.
    E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?
    E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu?
    Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

    E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

    E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

    E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

    E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

    Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
    Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

    Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

    Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças , de protecções e lavagens , de corporações e famílias , de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

    Este é o maior fracasso da democracia portuguesa.»

    ______________________________________________

    Eu sou ainda mais céptico, pelo que diria que este é apenas um dos grandes fracassos da “democracia” portuguesa. E pergunto, com a nossa democracia neste estado, qual é o mérito de se questionar a intenção de construir-se mais um mamarracho numa esquina qualquer ? Mamarrachos de todos os tipos é o que há mais neste país.

  2. Caro António

    Cepticismos à parte, questionar não ofende. Também me parece que não existe tal coisa como “projecto privado” em arquitectura, já que todos os projectos têm uma dimensão pública e é essa que se discute.

    Quanto ao resto, só me ocorre aquilo que o’neill dizia de Portugal:

    «meu remorso de todos nós…»

  3. Apagador diz:

    É certo que são os arquitectos as pessoas mais qualificadas para projectar algo deste género…
    É certo que os arquitectos têm o direito de ver as suas criações como obras de arte, como uma visão própria…

    Mas também é certo que em determinados projectos estes critérios dos arquitectos devem descer em termos de importância a um nível ligeiramente superior ao do excremento de cão.

    Falamos de algo que terá impacto no dia a dia de milhares de pessoas, na SUA cidade, não da cidade dos arquitectos ou dos políticos que querem encher os bolsos, na cidade DOS CIDADÃOS! Para mim, a partir deste instante, qualquer desejo ou comichão dos arquitectos ou da sua ordem deve ficar a vestir-se… que é como quem diz, em bom português, deve ser mandado a bardamerda qualquer chulo que julgue que pode aproveitar uma zona histórica, de todos nós, para proveito próprio, quer material, quer como para o ego.

    EU como lisboeta NÃO QUERO aquele COISA ali. Se a maioria dos lisboetas NÃO QUISER aquele mamarracho ali, que vão fazer? Construi-lo na mesma? Talvez… Mas então talvez um dia destes tenham sorte… quando precisarem da cidade para algo, talvez esta lhes levante o dedo do meio…

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