Existe uma Barcelona guapa vestida para seduzir, a cidade dos mega-eventos e da arquitectura de marca. Mas por trás das lantejoulas arquitectóticas e de alguma futilidade urbanÃstica parece também existir uma inteligência política que se esforça para dar uma coerência ao todo. Barcelona, apesar dos detractores a acusarem – não sem razão – de levar a cabo um lifting social, é a cidade que tem um plano: tornar-se na Cidade. Há cidades que se especializam no turismo, nas indústrias culturais, outras procuram afirmar-se pela sua universidade e outras ainda limitam-se a ser o centro simbólico do poder. A especialidade de Barcelona, em contrapartida, é a de ser cidade. De tal modo, que resolveu inserir a arquitectura e o urbanismo no ensino secundário. O Projecto Obra Oberta (aqui e aqui) destina-se ao alunos do ensino secundário e é da responsabilidade do Instituto Municipal de Educación de Barcelona (IMEB), do Departamento de Urbanismo do Ayuntamiento, da Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Caminos, Canales y Puertos da UPC e do departamento de Didáctica de Ciencias Sociales da UB e fará parte do curriculum leccionado. Tem por objectivo envolver os jovens nas questões do planeamento urbanÃstico e estes serão convidados a acompanhar obras emblemáticas em curso e a intervir no futuro da cidade através do debate.
Acho que vale a pena olhar para este projecto e fazer um pequeno exercÃcio comparativo com a nossa realidade. Salvaguardando as devidas distâncias, Porto e Lisboa também estão a atravessar um perÃodo crÃtico de reordenamento urbano: o Porto com a intervenção de reabilitação da baixa orientada pela SRUPortoVivo e Lisboa com requalificação da Frente Ribeirinha. São obras que, bem ou mal sucedidas, indiscutivelmente irão condicionar a vida das próximas gerações. Quer uma quer outra são cidades universitárias, com prestigiadas valências na área da engenharia, da arquitectura, das ciências sociais e da educação. Talvez a única coisa que não teremos em comum com a capital da Catalunha é a possibilidade de desenhar um curriculum especÃfico para os alunos em função do meio social e urbano. Por cá, come tudo do mesmo de norte a sul. Mas também não se trata de uma dificuldade por aà além, porque como todos os professores do secundário bem sabem, há sempre uma maneira de dar a volta ao texto. Então, o que nos separa de Barcelona? O que torna tão difÃcil um projecto do género do Obra Oberta ser implantado entre nós? Basicamente três motivos: a) As instituições que não aceitam cá misturas e que decerto transformariam uma boa ideia como esta num pesadelo burocrático e protocolar; b) Os políticos que não querem cá conversas sobre obras públicas e urbanismo que isso é negócio a tratar entre os próprios, os técnicos e os promotores; c) Os cidadãos que não têm cá tempo para estas coisas, entretidos que estão a saltar de fragmento em fragmento urbano. Cidades são coisas que fazem lá fora.
David Afonso




