É a segunda vez que o Museu de Serralves desce ao centro do Porto, para novamente se cruzar com as pessoas que normalmente não acorrem aos lugares convencionais da arte. Depois da colectiva Squatters, em 2001, ano da Capital Europeia da Cultura, Emissores Reunidos é a nova proposta do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS) para ir ao encontro da cidade, na Rua Cândido dos Reis, que é um dos locais da actual movida do Porto.
O nome não surge ao acaso, já que se trata de uma exposição que reúne trabalhos de dois artistas – Isabel Carvalho (Porto, 1977) e Nicolás Robbio (Argentina, 1975) – que dialogam especificamente com o lugar que lhes é proposto: as antigas instalações da RDP/Antena 1 e também, mais para trás no tempo, um edifício que já fez parte do principal centro comercial do Porto na viragem dos séculos XIX/XX, e que – e esta é uma ligação com a história de Serralves – foi mandado edificar pelo primeiro conde de Vizela com um projecto de José Marques da Silva, arquitecto que esteve também associado à construção da Casa de Serralves e do seu parque.
Com o subtÃtulo O amanhõ de ontem não é hoje, este Episódio 1 de Emissores Reunidos confronta os artistas convidados com o facto de o tempo presente não corresponder, muitas vezes, com aquilo que no passado foi pensado como futuro, algo que tem vindo a ser “uma obsessão” para muitos criadores, explica Ricardo Nicolau, comissário da exposição.
Isabel Carvalho e Nicolás Robbio foram, assim, desafiados a dialogar com este velho edifício. A primeira foi buscar referências à própria Fábrica de Tecidos do Rio Vizela, actualmente desactivada, mas que guarda ainda marcas de quando foi a maior empresa têxtil na PenÃnsula Ibérica. Com recortes de figurinos de revistas de moda e expositores de tecidos, Isabel Carvalho preenche algumas salas com a revivificação possÃvel de um passado olhado do presente. Noutras, regista em imagens vÃdeo outros lugares parados no tempo, ou então a metáfora do tempo parado vivido por um caracol.
Robbio convida cada visitante a anunciar a sua chegada ao velho estúdio da RDP tocando um sino que ecoa em todo o edifício. O trabalho dos sons é o denominador comum da intervenção do artista argentino, que viveu um mês no Porto para sentir a respiração da cidade. Numa sala, reproduz numa instalação mecânica as frequências helicoidais do som; noutra, reconstitui o “negativo” de uma orquestra de câmara recortando a figura dos seus instrumentos no chão de madeira. Noutra, ainda, reinstala uma antena, alertando para a brutalidade do som que se resguarda por trás das paredes do velho estúdio. É a sua forma de nos mostrar a “contradição” que é a essência de uma rádio: um meio de comunicação com o exterior que, para poder funcionar, tem de se resguardar de tudo o que está à sua volta, expõe Ricardo Nicolau.
VÃdeos e filmes na cidade
Na continuação da visita, será também possÃvel desvendar um pouco da colecção de vÃdeos e de filmes de artistas do MACS. João Fernandes, director do museu, diz que esta é ainda uma primeira e pequena amostra de um acervo valioso que vem sendo reunido desde o lançamento da Fundação de Serralves, e que reúne obras que são já também história da arte e da contaminação dela com outras formas de expressão, como os filmes de 8 e 16mm ou o vÃdeo. Dan Graham, Dennis Oppenheim, John Baldessari. Robert Smithson; ao lado de E. M. Melo e Castro, João Tabarra e Pedro Costa são alguns dos nomes representados. Esta é a 2.ª Parte da mostra antológica da Colecção do MACS, que começou no final de Maio, em Serralves, e vai ter uma terceira parte no Outono.
Fonte – http://www.publlico.clix.pt



