Senhora da Hora (Matosinhos) – descrição da cidade pelo Jornal Público "A cidade do Centro Comercial"

As cidades estão a mudar, sim. Estão baralhadas. As coisas já não estão no sítio onde costumavam estar – e isso nota-se bastante na nova cidade da Senhora da Hora, no concelho de Matosinhos.

O centro da cidade, por exemplo: o centro da Senhora da Hora ainda está no miolo da urbe, à beira da antiga linha férrea que agora é a linha do metro de superfície. Está lá a junta de freguesia, paredes-meias com os enormes silos de uma moagem de cereais, os Correios, a farmácia central (a funcionar provisoriamente num contentor), as agências bancárias, galerias comerciais, os cafés de bairro e a sede do Porto Canal. Mas o verdadeiro centro da cidade já não é ali. Moveu-se algumas centenas de metros e, agora, está nos corredores do NorteShopping, onde também há bancos e parafarmácias, centenas de lojas, uma estação dos Correios, um super e um hipermercado. Até a esquadra da polícia lá está. A praça principal da cidade é a praça da alimentação do centro comercial.

São onze horas de uma manhõ qualquer no centro da cidade da Senhora da Hora, que vai sensivelmente do Parque de Jogos Manuel Pinto de Azevedo à estação do metro do Porto para a qual confluem três linhas, ao longo da Avenida Fabril do Norte (que recorda a fábrica que, durante décadas, ocupou uma parte substancial do território da freguesia e foi responsável pelo seu crescimento): há pouca gente a circular nas ruas e trânsito quase nenhum, sinal mais ou menos óbvio de que estamos numa cidade-dormitório do Porto, do qual está separada apenas pela ténue fronteira da Estrada de Circunvalação. Mas esta é uma verdade que é também uma mentira. Basta, à mesma hora, entrar no NorteShopping para constatar que, senhorenses ou não, há muitas pessoas a circular nos corredores, nas filas para as máquinas ATM e para os bancos, nas lojas de telemóveis; mais gente nas esplanadas a ler os jornais do dia.

À parte este duplo e dúbio carácter, a Senhora da Hora é quase uma cidade-dormitório normal, excepto, talvez, pelo facto de parecer organizada e pouco suburbana, limpa e aprazível, ainda dividida pelo antigo risco ao meio da linha-férrea, agora mitigado pela transformação em linha de metro. A chegada do novo meio de transporte, inicialmente objecto de grande contestação, acabou por constituir uma oportunidade para a sua requalificação urbana: os espaços tornaram-se amplos e ajardinados e às velhas vivendas e palacetes, e às casas térreas dos bairros populares, juntam-se agora novas construções destinadas à classe média-alta do Grande Porto. Mesmo os terrenos da histórica Efanor vão dar lugar a um grande e luxuoso condomínio, para onde está inclusivamente previsto um pólo do Museu de Serralves.

Uma das mais impressivas características da Senhora da Hora prende-se, aliás, com a boa cobertura de serviços públicos e privados e de espaços de cultura e lazer. Para além de um dos maiores centros comerciais do país, que tem duas dezenas de salas de cinema e uma galeria de arte, há uma feira semanal muito afamada, um centro de saúde, o moderno parque urbano do Carriçal e o histórico parque das Sete Bicas, uma piscina municipal, um campo de golfe e a Escola Superior de Arte e Design. Há até casos de duplicação de equipamentos, como a coexistência do pavilhão gimnodesportivo da freguesia com o Pavilhão de Congressos e Desportos de Matosinhos, ou do complexo desportivo do Leixões SC com o campo de relva artificial do Parque de Jogos da Senhora da Hora. Em bom rigor, até o Hospital de Matosinhos, ou de Pedro Hispano, está situado no território da Senhora da Hora.

Não será uma vingança, mas é uma curiosa ironia: a Senhora da Hora foi, entre 1839 e 1853, a capital do concelho de Bouças, mas perdeu esse estatuto para Matosinhos, o que acabou por ditar a nova denominação do concelho. Hoje, o hospital central dos matosinhenses e o campo de futebol da principal equipa da cidade estão na vizinha e nova cidade da Senhora da Hora.

Fonte – www.publico.clix.pt

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