Ribeira quer recuperar movida perdida para os Clérigos

Aquilo a que chamamos Ribeira foi um dos focos principais de desenvolvimento do Porto, mas o tempo parece de divórcio com os portuenses. Formatada para receber estrangeiros, a zona precisa de se reconciliar com a cidade.

Avança a noite. Pratos e talheres seguiram para a barrela, mesas e cadeiras são empilhadas, formando esqueletos pré-históricos. É cedo, os sinos badalaram onze vezes, mas a Ribeira assemelha-se à mais profunda madrugada de outros tempos. Não morreu a noite, é certo, há na Lada um nicho onde os jovens formam multidão. Às segundas, dois litros de álcool, amansados com sumos industriais, ficam pelo preço de um. E bebe-se industrialmente. Mas é ali a movida portuense?

Não é. E jamais voltará a ser, pelo menos como há uma dezena de anos. A aposta de outros tempos, feita em força na diversão nocturna, vem sendo recentrada na restauração, mas os portuenses que querem comer fora não o fazem ali, pois os estabelecimentos, salvas honrosas excepções, estarão mais vocacionados para receber clientes estrangeiros que procuram a boa vista de rio, em detrimento da boa mesa, pagando por isso o que lhes for pedido.

Diz António Fonseca, presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZH), que “a Ribeira não pode continuar a trabalhar apenas o Verão, tendo de o fazer o ano todo”. Ressalva, porém, que não pode haver um regresso ao passado, porque “há dez anos houve uma liquidação da Ribeira” e, agora, “a tendência aponta para a restauração, para as esplanadas e para acabar a noite mais cedo”.

Conversamos na Praça da Ribeira, antes do sol posto, e há um mar de mesas vazias onde deviam correr rios de cerveja. Não será sempre assim, dizem-nos que as tardes estivais até têm sido concorridas. Mas é notório que a cidade poderia tirar melhor proveito da frente de rio, e tal não se consegue piscando o olho só à gente de fora. “A restauração devia apostar no mercado interno”, diz António Fonseca, defendendo o equilíbrio entre preço e qualidade. Por todos os motivos, incluindo só os clientes domésticos sanarem uma eventual quebra do turismo internacional.

Ao lembrar o iní­cio do fim da noite tradicional da Ribeira, com bares a desaparecerem e com o encerramento forçado às duas da manhõ, o responsável da ABZH traz à baila as mudanças de centralidade da noite portuense, agora com a Baixa – Galeria de Paris, Rua Cândido dos Reis, Praça de Filipa de Lencastre, Praça de Parada Leitão, Rua de Passos Manuel… – a tomar o lugar antes ocupado pela zona industrial.

Para a Ribeira, se quiser assumir-se como lugar onde os noctívagos portuenses abrem as hostilidades, jantando, é urgente a articulação com a Baixa, o que pressuporá uma aposta forte nos canais de ligação, isto é, em ruas como as de Mouzinho da Silveira e das Flores, que agora atemorizam os transeuntes nocturnos.

António Fonseca insiste na necessidade de apoios, das entidades que supervisionam o turismo, do município ou do Ministério da Cultura. À Ribeira não basta o fenómeno dos baldes e a invasão dos mais novos. A Lada pode ser um fenómeno, mas a agitação descontrolada comporta riscos, seja por se tratar de uma zona habitada e mal preparada para tanto povo (noite dentro, o apelo da natureza leva os moços a urinar em portas de habitações ou estabelecimentos), seja porque, avisa António Fonseca, “há que gerir aquilo com muita cautela, porque é alto o risco de vender álcool a menores de 16 anos”

Fonte – Jornal de Notícias

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