As cidades falam através das imagens que projectam no imaginário dos residentes e visitantes. Como é óbvio, as duas imagens nunca poderão ser coincidentes: a cidade dos que chegam e que partem não é a mesma dos que ficam. A ambição de cada turista é a de assimilar a cidade, tornar-se num deles sem deixar de ser, no entanto, quem é: um estrangeiro. O inverso também é verdade: os cidadãos aspiram a uma constante renovação da sua cidade, há sempre algo que vai mal, algo que precisa de ser mudado. A cidade de hoje exige ser perenemente refundada. É também uma espécie de turismo com a diferença de que não nos deslocamos, o sujeito é que desloca a própria paisagem. A tradução de perspectivas é complexa senão mesmo impossÃvel. Um guia é muitas vezes ele próprio um turista e o turista acaba por se ver ele próprio na posição de guia. Se tivermos sorte, é isto mesmo que acontece. Trazemos connosco uma série de imagens que pretendemos conferir com a realidade gerando um itinerário não raras vezes exótico para o residente. «Passo por aqui todos os dias e nunca tinha reparado neste prédio» confessava um dos nossos cicerones que todos os dias vinha do Bairro de Cascadura para o Centro sem suspeitar que aquele edifício é um dos marcos da arquitectura moderna (refiro-me ao edifício Gustavo Capanema). Por outro lado, à margem do roteiro programado, que inclui os pontos de observação obrigatórios que nos permitem reconhecer a cidade no mapa mental das imagens-lugar globalizadas (Pão de Açúcar, Corcovado, Lapa,…), vamos tecendo, com a ajuda dos nossos amigos um outro roteiro: os sítios onde se come bem barato, as ruas e os humores do trânsito carioca, os bairros da zona norte, o mercadão de Madureira, a costeletinha no bar da esquina e muita, muita conversa sobre trivialidades da vida e do trabalho. Aqui o Rio de Janeiro começa a falar uma linguagem diferente dos cartazes turÃsticos. A constante aflição – que se faz hábito – com a insegurança, com a casa que nunca mais se acaba, com o aperto de se chegar a horas ao trabalho e a desoras a casa, a multiplicação de expedientes para complementar o orçamento familiar e aquele fatalismo que parecem ter herdado do colonizador: «Fazer o quê?»
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