Por baixo dos vários metros de lonas, quatro mil blocos de adobe alinhados aguardam. Assim que a chuva parar em Angueira e o resto do trabalho o permitir, as peças de terra argilosa e palha secas ao sol de Agosto e Setembro serão levadas da eira para serem paredes da casa renovada da aldeia. Há, pelo menos, 70 anos que ninguém lá constrói assim.
O planalto mirandês está hoje vazio de gente mas ainda farto em barro, palha, saibro e água. O plano inicial de recuperação da habitação de 130 metros quadrados com sete metros de altura era usar apenas granito, xisto e cal hidratada, mas a descoberta de grandes quantidades de barro no assentamento das velhas paredes de xisto mudou o projecto. Colocava-se agora a possibilidade de a região já ter usado adobe, embora as investigações de referência sobre técnicas tradicionais, datadas dos anos 40, 50 e 60, e realizadas por agrónomos, etnólogos e antropólogos, fossem omissas sobre o assunto. O grupo, que incluiu nomes como Jorge Dias e Fernando Galhano, nada registou nessas três décadas. E é assim que Trás-os-Montes não figura no mapa das regiões de adobe, e muito menos Angueira, onde o xisto e o granito dominam.
A História diz, no entanto, que a matéria-prima estava sempre próxima do seu local de uso. Vera Schmidberger, co-proprietária da casa, arquitecta de construção ecológica e que acompanha há vários anos a investigação em Portugal sobre terra crua, procurou nas redondezas e encontrou os locais de onde se extraÃa barro ainda no início do século XX, um antigo forno de telha e até umas casas de adobe nas vizinhas Fonte de Aldeia e Caçarelhos, do concelho de Vimioso.
Encontrou também testemunhos. O senhor Armando, velho canteiro do granito e com 78 anos de memória, lembra-se de correr pelos estaleiros de adobe e telha, de Caçarelhos, nos tempos da escola primária. Aponta um a um os locais à volta da aldeia de onde saÃa o barro, uma terra é mais branca, outra mais amarela. Mostra as eiras da secagem e, por entre dois montes de silvas com quase o dobro da altura de um homem, chega à s ruÃnas dos antigos fornos de telha. Muito poucos se lembram do que se esconde nas covas tapadas pelas silvas, mas, naquele tempo, relata ao P2, “não havia mãos a medir”.
A actividade desapareceu há 70 anos, pelas suas contas, tal como desapareceram o ferreiro, o tanoeiro, o oleiro, a tecedeira, o pedreiro, o carpinteiro, o barbeiro, o sapateiro, o moleiro e o alfaiate. Hoje, ainda há dezenas de casas em Caçarelhos, mas quase não se vislumbram pessoas.
Terra e pedra
AnÃbal Costa, catedrático em Engenharia Civil na Universidade de Aveiro, há vários anos ligado à construção de terra e envolvido em acções de protecção do património histórico do concelho, declara que a novidade de Angueira não está tanto na descoberta de uma técnica tradicional, mas de uma coexistência. “Antes do betão armado, as pessoas usavam os recursos naturais que tinham à mão, era assim nos séculos XVIII e XIX e parte do século XX. Consoante os sítios, construÃa-se em taipa, adobe ou pedra.” Uma terra que dispõe simultaneamente de pedra e adobe é invulgar. Aveiro, por exemplo, onde 40 por cento da construção existente no concelho ainda é de adobe, “foi para a terra porque não tinha pedra e o Alentejo foi para a taipa porque não tinha pedra”. Trás-os-Montes tinha e tem terra e pedra.
A investigadora e arquitecta Maria Fernandes, a concluir o doutoramento sobre a utilização de adobe em Portugal, foi recentemente a Angueira e a Caçarelhos verificar os novos dados e incluÃ-los no seu trabalho. “O que era conhecido em Trás-os-Montes era a alvenaria de pedra, quando muito, casas com paredes divisórias de adobe. Foi uma surpresa encontrar paredes de estrutura também em terra”, afirma.
Mais do que actualizar o mapeamento das técnicas tradicionais de construção em Portugal, o grande objectivo desta investigadora, ligada à s universidades de Coimbra e de Aveiro, é “sustentar a hipótese de Portugal produzir adobe de forma industrial”. Mostra que recursos não faltam no paÃs, dos quais deve tirar partido, e mercado também não, e que a própria indústria convencional de cerâmica e tijolo, fortemente penalizada pela concorrência espanhola “por vender mais barato”, pode adaptar-se a uma nova via de negócio.
“Temos matéria-prima e indústria para este tipo de materiais”, sublinha Maria Fernandes, defendendo um caminho semelhante ao seguido por paÃses do Norte da Europa, nomeadamente alemões e suÃços, que adaptaram há alguns anos as suas indústrias e hoje são exportadores de adobe. Na Alemanha, é mesmo apontada uma fase de renascimento na utilização da terra como material de construção.
Adobe importado
As oportunidades de negócio existem, também para Vera Schmidberger, que recorda a dificuldade por que passou, há cerca de um ano, para encontrar o adobe requerido no caderno de encargos da reabilitação do arquivo da biblioteca municipal de Ferreira do Alentejo. Os muito poucos fabricantes portugueses, todos artesanais, sobretudo concentrados no Sul do paÃs, estavam presos a outras encomendas e a solução foi importar o material da Alemanha. O episódio teve alguma ironia, mesmo que, no final, o preço não tenha sido muito diferente do que pagariam por produção nacional.
A hipótese de negócio também entrou em Angueira, onde Vera gostaria de ver lançada uma entidade comunitária de produção de adobe para fora, que desse rendimento à população e a convidasse a fixar-se. “A construção sustentável não é só usar os materiais ecológicos, é também introduzir trabalho nas aldeias, ocupar os artesãos”, explica.
Entre o cepticismo e a curiosidade, a povoação anda, para já, expectante com o resultado da obra e a recordar o tempo em que se construÃa sem betão. Por isso, pouco mais se ouve do que “Vender para fora?”, “Era bom…”, “É verdade que barro aqui há muito…”.
AnÃbal Costa, que defende o ensino de materiais alternativos nos cursos de Engenharia Civil, tal como acontece em Aveiro – onde se estuda adobe, alvenaria de pedra, aço e madeira, para além do betão armado -, vê na reabilitação de património a grande aplicação de futuro para o adobe. Maria Fernandes é mais ambiciosa, crendo que a cultura portuguesa predominante de casas de um ou dois pisos representa um mercado significativo a conquistar pela técnica “mais internacional de todas, presente em todos os continentes”. Tanto é o material das casas pobres de Ãfrica e da América do Sul, como é do património mundial da Humanidade, das casas quinhentistas de Paquimé. É também o material dos ricos: o rancho de Ronald Reagan no Novo México é construÃdo em adobe.
Manuel, agricultor de 53 anos, de Angueira, que nas horas vagas fez de “adobeiro” e “gostou”, levanta as lonas e mostra os primeiros quatro mil blocos saÃdos das suas mãos. São os primeiros, absolutos, feitos em Agosto e Setembro, com palha 30 anos guardada na eira, com barro e areia da zona. Fez cerca de 300 blocos por dia, Ã média de quatro dias de secagem ao sol. A seguir, ainda tinha tempo de ir trabalhar para o campo, em cima do tractor azul.
Gosta da ideia de voltar ao adobe, caso o projecto comunitário se concretize, e conjectura que, “para ser para fora, tinha de ser feito de outra forma, num espaço maior, mas continuar a ser feito entre Junho, Julho e Agosto, por causa da secagem”. Um sistema industrial de extrusão, com ensecadeiras, ultrapassaria esta limitação, sugere Maria Fernandes, apesar de estes serem considerados menos resistentes do que os artesanais e não poderem servir como paredes portantes.
Com 39 anos de trabalho na construção, o empreiteiro da obra, Ramiro Rodrigues, preferia uma obra mais rápida, de menos detalhe, “podia ter aqui 11 homens, mas só estão três, quatro”, e com a “segurança do cimento”. Esta é, aliás, a dúvida mais comum para quem não domina a terra crua. Mesmo assim, a expressão é dele, “está a gostar, é outra coisa”, uma casa fresca no Verão, amena no Inverno e sem humidade.
A obra reaproveitou integralmente o xisto, o granito, o choupo, o freixo, o carvalho e o azinho da construção original e substituiu apenas as vigas carunchosas, agora destinadas à lareira, por pinho importado de florestas sustentáveis do Norte da Europa e tratado sem colas, por este não existir nestas condições em Portugal. As novas cantarias nasceram do granito da adega. “É uma obra sem lixo, com um ciclo de vida fechado e baixo impacto energético e ambiental”, sublinha a arquitecta.
Mito da segurança
AnÃbal Costa, que foi 30 anos professor de betão armado, considera que as duas principais questões que se colocam hoje à construção tradicional são o tempo e a segurança. A primeira diz ser inultrapassável. “Demora mais e, hoje, o tempo não dá para isso. As pessoas querem coisas rápidas.” Por outro lado, “qualquer um faz betão armado”, enquanto a técnica tradicional exige, tal como no passado, conhecimento do ofÃcio.
Arruma, depois, a questão da segurança na caixa dos mitos, quer pelo que a História provou, quer pela investigação recente de materiais, especialmente desenvolvida pela Universidade de Aveiro. “As casas de adobe duram centenas de anos. Em durabilidade, são iguais ou melhores do que as de betão armado e, até ver, o betão dura cem anos e a construção de terra vai em 10 mil anos.” Em Aveiro, depois de identificado o adobe na zona histórica, um levantamento recente à s freguesias de Ovar e Murtosa encontrou cinco mil casas construÃdas com esta técnica.
O trabalho laboratorial realizado na Universidade de Aveiro, a partir de ensaios aos materiais das paredes das casas antigas, tanto ao adobe como aos sistemas de taipa, tem permitido melhorar a resistência, estabilidade, pressão e massa da construção e deverá resultar na publicação de um manual de cálculo para os futuros engenheiros, de modo a ajudá-los, promete o professor, a “resolver bem os projectos tradicionais que lhes surjam e a evitar que a sua primeira reacção seja demolir para construir em betão”.
A reabilitação do edificado de adobe em Aveiro está a beneficiar do conhecimento já adquirido e é nessa investigação que Vera também se apoiou até chegar à mistura que considerou adequada para a casa de Angueira. O ofÃcio e a arte que obrigam a “saber o que se está a fazer” são os mesmos que permitiram fazer a massa que sustenta agora a muralha do castelo de Miranda do Douro. Com esta obra, confirmou também que o método de cálculo dos cadernos oficiais do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, usados para cumprir o regulamento de Regulamento das CaracterÃsticas de Comportamento Térmico dos EdifÃcios (RCCTE), “precisa de ser revisto”. Feitos por especialistas do betão e dos materiais industriais, os cadernos, pelos vistos, falham nos valores para as paredes de pedra.
Fonte – Jornal Público



