Obra aberta – Sagrada Família em Barcelona

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A conclusão do Templo Expiatório da Sagrada Família em Barcelona, da autoria do arquitecto Antoni Gaudí e iniciado há mais de 120 anos, está em marcha e a um ritmo alucinante. Quiçá fruto da vontade independentista catalõ – demonstrada através do recente referendo informal que propõe a autonomia da Catalunha – e que vê neste templo simultaneamente católico e modernista um símbolo da sua pujança cultural e económica.

Projecto extremamente ambicioso, que ocupa 12 800 metros quadrados de terreno, conta 170 metros de altura e propõe 18 torres, retrata maioritariamente temas do cristianismo combinados com apontamentos do nacionalismo catalão, constituindo também uma profunda homenagem à natureza.

A linguagem arquitectónica tem influências neogóticas, racionalistas do ponto de vista da relação forma/função, o que o torna um edifí­cio “modernista” , e da natureza, em cujas formas Gaudí se inspirou para o desenho arquitectónico.

Se no exterior dominam as torres de inspiração gótica, as três grandes entradas e a profusão de estatuária religiosa e simbólica, o interior é claramente mais naturalista. Assim, no exterior as entradas viradas a nascente, sul e poente retratam respectivamente a Natividade, Glória e Paixão de Cristo e cada entrada contém quatro torres, dedicadas aos 12 apóstolos. As seis remanescentes situam-se no centro do edifí­cio, quatro delas dedicadas aos evangelistas e outras duas a Jesus Cristo e à Virgem Maria.

Já no interior, o Templo recria uma floresta, onde os fiéis se abrigam. Esta ideia é expressa em todo o vocabulário arquitectónico: os pilares reproduzem raízes, troncos e copas de árvores. As diversas copas interseptadas permitem avistar as “estrelas”, no topo, óculos que deixam entrar a luz natural, segundo o arquitecto catalão.

As ideias do nacionalismo catalão estão subtilmente expressas no simbolismo proposto por Gaudí. Assim, o altar, elemento de ligação entre o Céu e a Terra , é circundado por pilares que retratam tanto os quatro evangelistas como os bispados da Catalunha, a partir dos quais se distribuem outros pilares que representam as restantes cidades espanholas e os 12 apóstolos. Já no exterior, é possível encontrar no meio de estatuária alusiva à vida de Jesus Cristo esculturas de anarquistas com bombas na mão.

Toda esta complexidade conceptual resulta do domínio total da engenharia e da arquitectura e do fascínio de Gaudí pela geometria, que unifica forma e estrutura, uma vez que às forças estruturais correspondem formas arquitectónicas. Nesta, e em quase todas as suas obras, foi profusamente utilizado o arco parabólico catenário, e, por exemplo, os pilares interiores desenvolvem-se a partir de uma superfície hiperbolóide parabólica, comum nas raízes dos troncos de árvores ou patas de alguns animais, como elefantes. No exterior, as torres são constituídas a partir de torção parabólica para acentuar a verticalidade, enfatizada pelas janelas minúsculas dispostas em espiral, outra função matemática e geométrica recorrente na natureza.

O Templo Expiatório, que como o próprio nome indica, é destinado à expiação dos pecados da humanidade, foi iniciado em 1882, com a construção de uma cripta pelo arquitecto Francisco del Villar, afastado da obra em 1883, dando lugar a Gaudí. A obra tem sido financiado por donativos, incluindo os de Gaudí, que doou todo o seu dinheiro e andou a pedir de porta em para este projecto. O arquitecto viveu os últimos anos no estaleiro de construção, onde improvisava e decidia in loco os destinos do projecto. Aquando da sua morte, em 1926, apenas estava concluída uma torre.

Continuadas pelo arquitecto Domènec Sugrañes, as obras foram interrompidas em 1936 com a Guerra Civil Espanhola, tendo sido destruídos muitos desenhos e modelos do projecto.

O maior impulso para a finalização do Templo deu-se a partir de 1985, com a constituição de uma nova equipa técnica e o aumento de donativos de fiéis de todo o mundo e das receitas de turismo.

Actualmente estão concluídos os portais da Natividade e da Paixão, e em execução o da Glória e as abóbadas interiores.

Espera-se que em 2010 o Templo comece a celebrar o culto religioso e que em 2025 esteja completamente concluído, resultando na interpretação possível das ideias de Gaudí, na juventude um opositor à Igreja Católica, mas que se tornou um cristão fervoroso com processo de beatificação em curso.

Fonte – Diário de Notícias

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