O que eles fizeram ao Guggenheim

330224

O Museu Guggenheim pediu a quase 200 artistas e arquitectos que reinventassem o edifí­cio de Frank Lloyd Wright como quisessem. Mais: encorajou a loucura. Álvaro Siza e Paulo David estão entre os participantes. Os resultados podem ser vistos na exposição “Contemplating the Void”.

Entra-se no Museu Guggenheim, em Nova Iorque, com o nariz no ar. Tudo nos pede para olhar para o alto, como um reflexo pavloviano: a rampa em espiral, a imensa cúpula de cristal, o narcisismo de uma “catedral” que parece ter sido concebida para ser contemplada em qualquer dos seis pisos. No limite, pode-se fazer o que se quiser no “foyer” de entrada do museu – começar um incêndio, etc. – porque os nossos olhos têm mais que fazer.

Há duas semanas, um casal afro-americano beijava-se em câmara lenta no átrio do Guggenheim, deitados como se dançassem com o chão, mas o ípsilon só se apercebeu da sua presença quando começou a subir a rampa (talvez não seja relevante em termos estatísticos: um senhor de gabardine e pasta petrificou a três metros do par; um casal de turistas beijou-se, imitando o par). “Pas de deux”? Escultura humana? “Kiss” é uma performance do germano-britânico Tino Sehgal, que decorre continuamente entre a abertura e o fecho do museu, um coreografado enlace amoroso executado por pares de bailarinos profissionais. Não poderia ter encontrado um sítio melhor para ser mostrado: como as curvas no interior do Guggenheim, é uma obra que reclama o nosso olhar (e, neste caso, voyeurismo) de forma inescapável.

Espiral

Roberta Smith, crí­tica de arte do “New York Times” definiu recentemente a espiral do Guggenheim como “o mais extraordinário umbigo na arquitectura moderna”. Foi esse vórtice, uma rampa ascendente como um parafuso, deixando o centro do edifí­cio vazio, que serviu de base a uma proposta que o museu fez no ano passado a artistas e arquitectos, incluindo os portugueses Álvaro Siza e Paulo David. Foi-lhes pedido que idealizassem a sua intervenção na espiral de Frank Lloyd Wright, encorajando os participantes a ir tão longe quanto quisessem e a deixar a realidade de lado. Como um concurso de ideias, sem a fase de execução. “Dissemos-lhes que não íamos executar nenhuma das propostas, para não se preocuparem demasiado com constrangimentos financeiros ou legais”, explica ao ípsilon David van der Leer, o jovem programador de arquitectura e design do Guggenheim de Nova Iorque, que com Nancy Spector, programadora principal e directora-adjunta do museu, é o comissário de “Contemplating the Void: Interventions in the Guggenheim Museum”, a exposição que reúne as propostas de 193 artistas, arquitectos e designers. A mostra, que ocupa uma sala no quarto piso do Guggenheim e termina a 28 de Abril, é uma das exposições que desde o ano passado têm vindo a assinalar os 50 anos do museu.

David van der Leer diz que não fazia ideia do que iriam receber dos participantes. E quando as propostas começaram a chegar “foi como desembrulhar prendas”. A exposição contém desenhos digitais, fotografia, colagens, desenhos a grafite, uma ou outra proposta exclusivamente textual (mas nem por isso mais concretizável).

Os projectos estão expostos tal como chegaram, sem molduras, como posters colados na parede. Não estão identificados com legendas, mas por números ordenados de forma aleatória; só através de um folheto de oito páginas distribuído à entrada se pode saber o que é de quem.

“Quando se anda pela sala e se olha para os projectos, não somos empurrados numa determinada direcção ao ver um nome”, explica David van der Leer. “As obras estão densamente concentradas nas paredes, pelo que já há tanto para ver. Queríamos que a exposição fosse quase como uma sessão crí­tica numa escola de arquitectura, em que os trabalhos são colados na parede e discutidos colectivamente.”

Algumas propostas são despudoradamente lúdicas: o atelier de arquitectura holandês MVRDV sugere a disposição das obras abstractas e não-objectivas que fazem parte da colecção do museu ao longo da rampa e a colocação de uma rede elástica no vazio central do segundo piso para “um diálogo recreativo com o sistema de arte contemporânea”; o americano Christian Marclay propõe um “Evento Sonoro”, que consiste em lançar milhares de bolas (de pingue-pongue, de golfe, e berlindes) desde o último piso do Guggenheim, rampa fora. Muitas são quiméricas: a dupla norueguesa Michael Elmgreen e Ingar Dragset expande a espiral de Frank Lloyd Wright até ao infinito; a alemõ Josephine Meckseper encheu o átrio de água e instalou aí uma estação de prospecção petrolífera – o “New York Times” vê nisso uma referência ao museu que o Guggenheim vai abrir em Abu Dhabi, previsto para 2013. Noutras propostas, inspiradas certamente pelos ideais de Wright, arquitecto que odiava cidades, o museu reverte a uma espécie de natureza primordial, idílica nuns casos (Saunders Architecture), pós-apocalíptica noutros (N55).

Também há trabalhos histriónicos: a proposta que tende a concentrar as atenções, pelo menos na tarde em que o ípsilon visitou “Contemplating the Void”, é a ameaça de ataque terrorista do sul-africano Kendell Geers: num texto com fundo negro, o artista diz que há uma bomba escondida na exposição que irá explodir num momento que só ele sabe qual é. “Sendo uma vítima da evolução da História de Arte e da política contemporânea como qualquer pessoa ferida no processo, não tenho escolha”, escreve. E conclui que deverá ser sentenciado a prisão perpétua, o que “a longo-prazo” o ajudará a criar a sua “segunda maior obra de arte”.

“Há muitas ideias diferentes na exposição”, resume David van der Leer. “Temos por vezes propostas muito extravagantes; a escala vai das interpretações lúdicas e ligeiras a ideias mais subtis e discretas. E nem todas são positivas, algumas são crí­ticas do espaço ou de nós enquanto instituição.”

Os arquitectos

O Guggenheim é uma das obras mais emblemáticas e radicais da arquitectura moderna. A crí­tica do “New York Times” sobre a exposição nota que algumas propostas transfiguram violentamente a espiral de Wright, ao ponto de a tornarem irreconhecível. E acrescenta que são os arquitectos que tendem a fazê-lo, a ser mais edipianos. Será mais difícil para um arquitecto confrontar-se com Frank Lloyd Wright? E já que falamos de egos, há casos em que os arquitectos se apropriam do espaço, impondo a sua marca, como Zaha Hadid, que aplica uma escultura em fibra de vidro, fluida e espelhada num dos anéis da espiral, ou Daniel Libeskind, que anula a estrutura cilíndrica do edifí­cio original, aplicando-lhe a geometria da sua própria arquitectura – uma sobreposição de prismas.

Pelo contrário, a proposta de Álvaro Siza não acrescenta, não exacerba, não manipula ao ponto de tornar o espaço original irreconhecível. “Ele é de uma tal beleza”, diz por telefone. “Não ia fazer essa maldade.” O arquitecto português propõe a colocação de um espelho gigante de curvas reentrantes, invertidas em relação às da espiral de Wright, no átrio do museu. O espelho reflecte a parte de cima do edifí­cio – a cúpula de cristal -, como se o virasse do avesso.

Comparada com outras, a intervenção de Siza parece um caso de humildade: reforça o que já existe, originalmente, no espaço. “Não gosto muito dessa interpretação de humildade”, defende o arquitecto. “Gostaria de ser humilde em absoluto. Não é verdade. Por outro lado, é extremamente ambicioso porque [a minha proposta] permite reforçar o ideal que está presente naquela obra – o de um espaço total, sem princípio nem fim.” Álvaro Siza explica que quem entra naquele edifí­cio “tem a sugestão da esfera”, “uma impressão de totalidade”. Claro que a continuidade total não é possível: “Quando chega lá acima, a rampa termina de forma quase frustre”, nota, “vai por ali fora e de repente faz uma curvazinha e acaba”. Mas o seu jogo de espelhos contraria isso, completa esse ideal de totalidade.

O arquitecto madeirense Paulo David define a sua intervenção como “um gesto muito simples”. Através de uma projecção de vídeo, propõe escurecer o interior do edifí­cio até obter uma luz azul, “como se estivéssemos num ambiente submerso”. Ao mesmo tempo, o lado exterior do corrimão da rampa é convertido num ecrã sobre o qual é projectado um feixe de luz que percorre toda a espiral. Paulo David explica que a ideia lhe foi sugerida pela dinâmica descendente da espiral, que evocou nele “um grande movimento de água”. A par disso, inspirou-se noutra obra referencial de Wright com uma forte presença da água: a Casa da Cascata, construída em 1937, na Pensilvânia. Assume que não quis fazer uma intervenção arquitectónica. “O que nos entusiasmou aqui foi não ser arquitecto. Usar o edifí­cio para uma intervenção artística.” E diz que parte do mesmo gesto que Siza: a sua proposta é “realizável, mas não toca no edifí­cio.” “Há um carácter de respeito e de atenção ao próprio edifí­cio. Uma espécie de pisar leve.”

“Contemplating the Void” é também uma exposição virtual. As propostas podem ser vistas aqui

Fonte – Jornal ípsilon Público

Esta entrada foi publicada em 1. Imprensa, Blogosfera e Web, 8. Arquitectura e Engenharia com as tags . ligação permanente.

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s