Ainda vale a pena comprar casa? Presumo que, na actual conjectura, a resposta a esta questão seja demasiado fácil. Com a degradação crescente das condições do crédito à habitação, o problema pura e simplesmente nem se chega a colocar para uma larga maioria de portugueses. O que não significa que a venda de imoveis esteja paralisada. Alguns produtos, como bem se sabe, têm sempre procura. À parte a gama alta, existem “produtos” muito específicos como os edifícios históricos, sobretudo quando localizados em centros urbanos com certas características continuam a manter activo o mercado. Mas este é já outro mercado que não o mercado massificado. Por um lado, estamos a falar de pequenos investidores que procuram, muitas das vezes, por a salvo as suas poupanças em produtos alternativos às tradicionais aplicações financeiras e que, para além de tudo, valorizam o carácter único destes edifícios. São exigentes, conhecedores, com elevado grau de escolaridade. Algo mudou do lado da procura. Por outro lado, do lado da oferta, isto é, dos serviços, tudo permanece igual. Podem ter mudado à pressa o marketing passando a ostentar espalhafatosamente o dístico “reabilitação urbana”, mas continuam obtusos como sempre. Isto a propósito de uma imobiliária que, sabendo do interesse de um cliente num imóvel no Centro Histórico do Porto, não encontrou melhores palavras de encorajamento do que estas: “Está tudo podre. É para ir tudo a baixo, fazer de novo e subir mais três pisos!” Temos artista… Se formos capazes de resistir a esta espécie de canto da sereia, outras dificuldades saltarão ao caminho. As empresas de construção, por exemplo, são agora todas de “reabilitação urbana” por defeito. Mesmo que a única coisa que tenham feito até à data seja estradas e pontes, agora, por estranhos processos mágicos que não consigo explicar, são todos grandes especialistas em património e edifícios históricos. Curiosamente, o remédio continua o mesmo de sempre: “Vai tudo abaixo!”
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