«Kublai Khan percebera que as cidades de Marco Polo eram todas parecidas, como se a passagem de uma para outra não envolvesse uma viagem mas uma mera troca de elementos».[Italo Calvino]
O diálogo que a arquitetura contemporânea estabeleceu com o «estado das coisas» tem sido, em grande parte, um diálogo sobre cidades invisíveis. O star system da arquitetura desenvolveu-se em torno da crença num crescimento económico ilimitado, caracterizado por uma concorrência generalizada entre cidades com o objetivo de atrair, captar e fixar os recursos financeiros em circulação pelas correntes submersas da globalização. De alguma forma, os edifícios de Autor deveriam desempenhar uma missão quase mágica: deveriam ser como uma espécie de totem capaz de invocar e trazer à superfície a riqueza dispersa pelo globo. Mais coisa, menos coisa este é um dos princípios básicos do chamado «planeamento estratégico». Um pouco por todo o lado, a crença disseminou-se dando origem a uma indústria de projetos de grife, à volta da qual gravitam uma série de produtos (revistas, workshops, programas de televisão,…) que tratam de mediatizar o arquiteto, integrando-o na cultura popular. Do Dubai à mais modesta cidadezinha perdida no interior do país, os arquitetos foram convocados para erigirem obra e fazerem a magia. É claro que estávamos perante cidades que ainda não existiam ou que nunca viriam a existir sequer. Nem sempre o truque funcionava. Fantasias construídas para maravilhar colonizaram todo o globo. Até que um dia o dinheiro acabou e destas cidades invisíveis ficaram apenas os totens. Cada obra é única (algumas delas tornam-se monumentos, inclusive), mas o processo é sempre o mesmo.
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«You never know what is enough until you know what is more than enough.» [William Blake]
Isto tudo parece que foi há muito tempo. Os tempos, agora, são outros e o mercado parece já não ter capacidade para alimentar o Autor. Há quem despeça colaboradores, há quem migre em busca dos mercados emergentes e há quem pura e simplesmente feche portas (ou pelos que ameace a tal). No resto do mundo civilizado, isto é, descapitalizado, o «estado das coisas» exige uma reconfiguração no que diz respeito à visibilidade do arquiteto e da sua obra. Seguindo as regras não escritas dos ciclos económicos e das respetivas atualizações dos padrões sociais de comportamento, a ostentação é condenada, a frugalidade elogiada e os exageros exorcizados. “Discrição é a nova visibilidade” diz-se agora. Para se chegar até aqui, foi necessário percorrer o caminho do excesso e do culto do autor. Em contraciclo, ao longo da segunda metade do século XX foram ganhando forma algumas propostas alternativas centradas nas questões ambientais e patrimoniais. Qualquer uma delas, propõe uma abordagem holística do objeto arquitetónico, reposicionando-o num contexto espacial, temporal e moral alargado. Este discurso inicialmente produzido a partir das margens da tendência dominante, acabou por suportar de uma forma mais ou menos explícita a base ideológica de uma nova prática arquitetónica. Neste caso, as margens tomaram conta do leito do rio e a consequência disso é que a figura da autor torna-se obsoleta no sentido em que o que interessa é o objeto e as suas relações com o meio. Não é o fim da arquitetura, mas de uma certa forma de se fazer arquitetura.




